blog_pele
O PRIMEIRO TRATAMENTO

Esse é o terceiro post sobre o processo de criação e execução do A Pele do Cordeiro.

 

Fui para o sítio, futura locação do filme, numa segunda cedo, em fevereiro de 2011, disposto a passar a semana escrevendo - e levei uma cadeira especial, que havia acabado de comprar. Essa cadeira, imaginei eu, seria ideal para escrever tantas horas por tantos dias. Eu já havia passado por esse processo outras vezes, escrevendo o roteiro de outros projetos. Uma semana inteira no sítio numa imersão absoluta, solitariamente escrevendo das 9 da manhã à meia noite. Dessa maneira, havia escrito o roteiro de outros 3 projetos. Agora com o A Pele do Cordeiro seria a quarta experiência. Imersão para provocar emersão. Escrever 13 ou 14 horas por dia é extenuante (e prazeroso), e tenho a impressão que essa obsessão é parte do processo. É através desse mergulho mais ou menos irracional que as cenas começam a nascer.

 

Nicolau

Durante as semanas solitárias de escrita eu tinha um companheiro, que não deixava a situação tão solitária assim: Nicolau.

 

Eu passeava pelo sítio uma ou duas vezes por dia, para relaxar, mas também para ter ideias e pensar nas cenas enquanto caminhava pelas futuras locações. Pois foi numa dessas andadas que me deparei com um velho tronco seco, que já existia desde quando compramos as terras, no ano 2000. Gosto de procurar imagens que traduzam o conteúdo da estória. Criar metáforas visuais e com isso construir alicerces para a narrativa que não estejam nas palavras, mas nas imagens. Ora, estávamos falando de sonhos e desilusões e me pareceu adequado mostrar isso através do contraste: primeiro, no passado (1992) existiria uma árvore frondosa, depois, no presente da estória (2002), essa árvore teria se transformado no tronco seco.

 

Tronco

O tronco seco que foi incorporado à narrativa como metáfora.

 

Eu sabia que conseguiria escrever 10 páginas por dia, o que é ótimo. Isso significa que em duas semanas eu teria o primeiro tratamento escrito. Esse era o plano. Bastava seguir a escaleta e deixar as cenas aparecerem. Dar voz às personagens. Mas na quinta feira, logo de manhã, ao sentar na tal cadeira especial, me deu uma dor nas costas que me jogou no chão. Uma dor na lombar como nunca tinha sentido. Tudo porque havia ajustado mal a altura da cadeira. Pronto acabou o trabalho. Passei o dia e o próximo indo atrás de remédios, massagens, analgésicos e emplastros, qualquer coisa pra diminuir a dor. Enfim, botei a viola no saco e voltei para São Paulo com apenas 27 páginas escritas, em vez de 40 ou 50.

 

Dei um jeito de sarar as costas e voltei para o sítio para mais duas semanas de imersão. Em 18 de março consegui acabar o primeiro tratamento. Algumas semanas depois, tivemos uma reunião com a Chris Riera, Teo Poppovic, Luis Amaral e Pedro Morelli, para eu receber os comentários sobre o que havia escrito. Claro que havia muito a se mexer, claro que muitas cenas estavam equivocadas e precisavam ser refeitas, mas já havia algo ali. O primeiro tratamento tinha sua força. A estrutura da estória havia ficado de pé e os personagens já começavam a ter vida.

 

A partir desse ponto, o Teo Poppovic começou a escrever os diálogos. Ele faz isso especialmente bem, e em breve havia um tratamento com um sabor especial: ele havia trazido um tom sutil de ironia e humor em várias cenas.

 

Mostrei para o Fernando Meirelles, e coloco aqui dois comentários que acho interessante compartilhar. Ele escreveu comentários conforme ia lendo, deixando registrado suas primeiras impressões. Primeiro, ele faz uma aposta comigo de que tinha sacado uma virada da trama. E acertou! Infelizmente, não posso revelar o que ele descobriu. 

 

Aposta

 

Nesse ponto, ficamos pensativos: o Fernando tinha sacado o ponto de virada do primeiro ato bem antes da hora. Será que tínhamos entregado cedo demais? Plantar pistas é um assunto delicado. Se você revela demais, o espectador mata a charada, se revela de menos, ele leva um susto quando chega a hora, e pode se confundir ou se desligar da estória. O fato é que para a estória ficar amarrada, é necessário fazer uma costura dos setups e payoffs - ou "plantar" e "colher" em português. As fatos de uma estória não devem acontecer sem preparação. A questão é quanto.

 

Estávamos diante de um dilema estético, da narrativa. No filme existe um segredo que clama por ser revelado. Que caminho seguir? Duas opções: a) um filme onde o segredo é revelado só no final, tanto para o público quanto para as personagens; b) revelar o segredo ao público no início da narrativa. Nesse caso, o público sabe mais do que as personagens, e a partir desse ponto, passa a se fazer a seguinte pergunta: "quero ver como os personagens vão descobrir aquilo que eu já sei".

 

É uma abordagem hitchcockiana, onde o importante é o suspense não o mistério. O exemplo que Hitchcock dava era da bomba embaixo da mesa. No mistério, a bomba simplesmente explode, mata as pessoas e a platéia leva um susto. No suspense, o público sabe que existe uma bomba mas as pessoas sentadas à mesa, não. Desse jeito, a audiência fica angustiada esperando para saber se a bomba vai explodir, se as pessoas à mesa vão escapar ou não. Em vez de um susto que dura alguns segundos, o suspense provoca a interação do público por um longo tempo.

 

Depois dessa reflexão, resolvemos inverter as coisas. Em vez de revelar que existe uma bomba embaixo da mesa só no final do 1º Ato, resolvemos compactuar com a audiência o quanto antes (apesar de mantermos passado e presente embaralhados), e com isso desenvolver o suspense em vez do mistério. Mas é claro que não se pode revelar tudo, apenas o necessário para capturar a atenção. O público deve saber que existe a bomba, mas não sabe se ela vai explodir. No caso do A Pele do Cordeiro, o público vai saber que existe um segredo, mas não sabe como, quando - e se - ele vai ser revelado.

 

Poucas páginas depois, no segundo comentário, o Fernando engrenou na estória.

 

Pronto!

 

Claro que havia muito trabalho ainda pela frente. Apesar disso, eu me precipitei. Resolvi acreditar que já estávamos maduros e comecei me movimentar para filmar no segundo semestre de 2011. No fundo, estava louco para voltar à um set, afinal a última vez que havia filmado tinha sido no Cidade dos Homens, em 2006. Era pura precipitação, mas teimosamente insisti em filmar ainda em 2011. A formação de elenco e equipe continuou por mais alguns meses, até que, finalmente, resolvi abortar as filmagens naquele ano, principalmente porque as datas de filmagem estavam se aproximando perigosamente da estação das chuvas na Mantiqueira. E lá, quando a água começa a cair, cai mesmo. Ainda bem! Com esse adiamento, ganhei mais nove meses para trabalhar no roteiro - e ele evoluiu muito nesse período. Se eu tivesse filmado em 2011 o filme teria ficado pior.

 

Com o adiamento das filmagens para 2012, continuamos o trabalho de desenvolvimento do projeto. Em setembro fomos, Pedro e eu, passar uns dias no sítio para pensar na linguagem cinematográfica que queríamos para o filme. As coisas devem andar simultaneamente, a estória e a estética, porque, afinal de contas a estética deve abarcar a estória. O conteúdo deve residir na forma. Se houver uma dissociação entre forma e conteúdo, a coisa desanda.

 

Reflexos

Um dos primeiros conceitos estéticos que nos ocorreu foi o jogo dos reflexos, sombras e silhuetas. Essa é uma foto onde estamos os dois, pai e filho, colocando em prática essa ideia.

 

Pelo outro lado, o roteiro não podia parar. Com o afastamento da Chris Riera por motivos de saúde, convidamos uma nova pessoa para analisar o roteiro: Luiz Bolognesi. Como descrever o seu trabalho em uma palavra… hum… brilhante! Marcamos uma reunião em setembro de 2011. Desta vez, só o Pedro e eu. Depois de 5 horas de reunião não tínhamos falado tudo que havia para ser dito e tivemos que marcar uma reunião/parte 2. A sua clareza e compreensão da narrativa, dos personagens, das progressões e dos significados foi muito útil, mais do que útil, transformador.

 

É curioso notar que nessa época (final de 2011) o passado e o presente da estória estavam intercalados (vejam as linhas verdes horizontais no timeline). Depois das reuniões com o Luiz, partimos para agrupar todo o passado, e seguir com o filme na ordem cronológica. Filmamos e estamos montando (nesse momento, aliás) desse jeito. Mas o próximo passo da montagem, que vai começar daqui a poucos dias, é justamente experimentar a volta ao pensamento original: embaralhar passado e presente. Vai ser curioso ver o que resultará desse jogo de flashbacks. Estamos trabalhando no Corte 3 do filme, e ele já tem dois nomes: 3A (linear), e 3B (flashbacks). É impossível saber nesse momento qual dos dois ficará melhor. Só vendo.

 

Timeline

 

As linhas verdes horizontais indicam o passado: o timeline acima é o da escaleta (repleto de fashbacks). O de baixo, do roteiro filmado (em ordem cronológica. Reparem que as linhas verdes horizontais estão todas agrupadas no início da estória).

 

Timeline

 

Depois da sacudida nas ideias que o Luiz Bolognesi provocou, passei por mais uma semana de imersão, desta vez em casa mesmo (sem cadeiras assassinas), e fechei um novo tratamento. Com ele em mãos, marcamos a filmagem para o segundo trimestre de 2012. Mas isso é história para uma próxima vez.

 

Paulo Morelli, 23 out 12

694 visitas
A COLABORAÇÃO DA CHRIS RIEIRA

Esse é o segundo post que faço sobre o processo de criação e execução do A Pele do Cordeiro. No post anterior, contei desde como nasceu a ideia há 7 anos até o momento em que achamos o plot da estória, a pegada da trama. Continuo deste ponto em diante.

 

A Pele do Cordeiro

Os personagens enterram as cartas

 

Em fevereiro de 2011, Pedro e eu retomamos os encontros com os colaboradores no desenvolvimento do roteiro, com uma alteração na equipe: agora contávamos com a presença saudosa e iluminada da querida Chris Riera. É dela uma frase que me marcou e que tem norteado não só esse trabalho como todos os outros que pretendo fazer: "menos trama, mais drama". Para mim - que sou uma pessoa muito ligada às tramas nas estórias - esse foi um alerta de procurar sempre o que há de mais humano e delicado nas relações entre personagens. Isso se transformou numa orientação geral para a estória que estávamos criando, apesar de haver nessa estória uma trama muito clara e definida. Como em tudo aliás, o que interessa é o equilíbrio, nesse caso, o equilíbrio entre Trama e Drama.

 

O processo de criação de uma estória é necessariamente caótico, fora de ordem, múltiplo e sincrônico. As ideias evoluem, se transformam, são jogadas fora. Rumos mudam, perspectivas surgem, coincidências se apresentam. E às vezes, você se vê aprisionado num beco e de uma hora pra outra, parece que tudo que foi criado até ali caiu por terra. Escrever drama pode ser dramático. Em compensação, creio que essa tensão está na raiz do desafio que motiva alguém a se meter numa tarefa que vai levar na melhor das hipóteses alguns anos para ficar pronta. Não é simples construir uma estória que fique de pé, com um mínimo de coerência interna, sem furos gigantescos, e que sirva pra alguma coisa. Escrever envolve um grande risco: o risco de não ficar bom. Melhor assim, o risco é que tempera o que fazemos. Onde não há risco, não há muita coisa.

 

Desde o início, tínhamos a ideia de fazer um filme sobre um grupo de amigos em um sítio (poucos personagens + única locação = produção barata). Isso nos levou a procurar referências que se passavam em uma casa de campo. Lembramos do filme Invasões Bárbaras (e o seu antecessor, A Queda do Império Americano, ambos de Denys Arcand), onde um grupo de amigos se encontra em uma casa de campo e discutem temas contemporâneos em alto nível. Lembramos também do tom minimalista dos contos de Tchekhov, onde as personagens deixam apenas transparecer o que sentem. Fomos checar também o filme do Woody Allen, Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão, mas descartamos o tom farsesco. Queríamos um filme realista, não podíamos nos deixar seduzir pelo burlesco. Outros dois filmes se juntaram às nossas referências: Pecados Íntimos, de Todd Field, com tempos dilatados e tensões ocultas, e O Reencontro, de Lawrence Kasdan, um clássico dos anos 80 onde um grupo de amigos se reúne e passa a vida a limpo. Em todos esses casos, o drama é a moeda corrente. Era isso que procurávamos.

 

A Pele do Cordeiro - Pedro Morelli

Pedro fotografa o sítio em 2010. A ideia de filmar lá, sempre presente

 

Queríamos um filme que levasse à reflexão e à emoção, mas não só isso. Também tinha que ser um daqueles filmes que te capturam e não se deixam largar. E para isso, tem que existir uma trama forte. O Pedro comentou há pouco (depois de ler um esboço desse post - e este trecho está sendo reescrito hoje, dia da publicação do post - e digo isso porque esse é um blog para pessoas que gostam de escrever, ou ao menos de saber como uma estória é feita. E o curioso aqui, se me permitem um aparte longo desse jeito, é mostrar um pouco do processo de escrever, que é um vai e vem permanente, em que se trabalha e retrabalha o texto inúmeras vezes, em múltiplas camadas, como se fossem demãos de tinta), e o Pedro disse: "eu vejo filmes com você desde que nasci, e me lembro que você sempre olhava para o relógio do dvd e dizia 'faz 20 minutos que o filme começou, mas a estória ainda não'". Isso nos revelou que gostamos também, e muito, de filmes em que as coisas acontecem, a estória vai pra frente, a trama nos fisga e nos aprisiona na cadeira. O Robert McKee diz que as estórias tem que ter um "Inciting Incident" - que traduzi como Disparo Dramático, no Story Touch. Quando isso acontece, nós, o público, ficamos presos à estória, esperando uma resposta para a pergunta que inevitavelmente surge: como isso vai acabar? Se você - cineasta, autor, escritor, ou qualquer um ligado às artes narrativas - conseguir plantar essa pergunta na mente do público ele vai te seguir até o final.

 

A Pele do Cordeiro - Cartas

As cartas, abertas dez anos depois

 

Mas o processo não é só de acertos. Várias ideias dispersivas surgem no caminho. Vejam algumas. E se o grupo de amigos fosse até a cidade e entrasse numa briga com os jovens habitantes locais? E se - por algum motivo - eles matassem o caseiro e tivessem que se livrar do corpo? E se fosse apenas um filme de relacionamentos afetivos, sobre a sexualidade? Descartamos esses caminhos, ou por serem pueris, ou por estarem em outro tom. O que queríamos era um drama humano, que se levasse a sério e nos fizesse refletir sobre nosso tempo e nossos desejos.

 

Voltamos à busca do equilíbrio entre trama e drama. Havíamos partido de um caminho que privilegiava o drama: um grupo de amigos que se reencontra depois de dez anos e reavalia suas vidas. Mas nosso impulso nos levou a mesclar o drama humano com uma trama - se possível de pegada shakespeareana, esse o grande mestre da composição entre trama e drama.  Sou leitor de Shakespeare, mas não um estudioso. Do pouco que sei, uma coisa me chama a atenção. Suas peças tem uma palavra chave que é a base da peça: ambição em Macbeth, vingança em Hamlet, ciúmes em Othelo. O que estávamos construindo para A Pele do Cordeiro tinha uma questão de fundo: a amizade. E daí, por oposição dramática, surgiu a palavra: traição. E essa palavra é a raiz tanto do drama quanto da trama.

 

Nesse período, produzi diversas escaletas com pequenas descrições das sequências, a partir das quais procurávamos montar o quebra-cabeças de se juntar personagens em duas épocas diferentes. Aliás, essa foi uma ideia da Chris: localizar o filme em um passado recente. Escolhemos 1992 e 2002. Em 1992 o país vivia uma esperança real, a sociedade havia se unido para derrubar o Collor.

 

A Pele do Cordeiro - 1992

 

Em 2002, ano em que Lula foi eleito, as esperanças se renovavam. O filme fala sobre sonhos, portanto falar de esperança é uma maneira de vincular o contexto à narrativa. Havia também o desejo de que as duas épocas cruzassem a virada do milênio. O filme deveria estar situado após o 11 de setembro, momento em que o mundo assistia perplexo ao nascimento do novo milênio com um sabor ambíguo, combinação de esperança e medo. Por último, pareceu interessante criar uma cadência de dez em dez anos: 1992, 2002, 2012 (este último, o ano em que o filme seria feito).

 

A Pele do Cordeiro - 2002

 

Começamos 2011 com reuniões onde além da Chris participavam Teo Poppovic, Luis Amaral, Pedro e eu - e nas quais ficamos costurando a trama e o drama, desenvolvendo as personagens, suas trajetórias e seus finais. Talvez esse seja um resumo do escrever roteiros: personagens, trajetórias e finais. E o final é, creio eu, o elemento mais delicado e importante a se alcançar. É no final que reside o significado, a razão de todo o trabalho. Curiosamente, apesar da sua importância, o final muitas vezes "se esconde". Vamos escrevendo com uma vaga intuição de onde devemos chegar, mas essa meta, esse "onde chegar", é difuso e mutável. Mas como escrever é uma atividade alicerçada em impressões e sentimentos, a instabilidade do caminho é parte indissociável do processo. No caso de A Pele do Cordeiro, o final só foi descoberto muito mais pra frente, perto da hora de filmar. Mas esse ponto fica para outro post.

 

No entanto, não quero deixar a impressão que esse roteiro foi feito na "porra-louquice", ir fazendo para ver onde vai dar. E não que eu tenha alguma coisa contra a escrita mais intuitiva, pelo contrário. Acho que tem horas que você "deve" se perder, mergulhar até ficar sem ar. Senão não chega do outro lado. Mas também acho que se deixar dominar pelo inconsciente pode te levar a ficar sem ar, mesmo. Cansei de ver obras que se afogaram. Livros que abandonei, filmes que deixei no meio. Voltando pro nosso caso, não sabíamos como era o final, isso é fato, mas sabíamos o que queríamos dizer. Havia um conceito claro que permeou todo o trabalho: mostrar como os sonhos idealistas da juventude podem ser afetados e transformados pela maturidade. Numa frase mais curta, um filme sobre sonhos e desilusões. O final, que viemos a descobrir muito mais tarde, permanece fiel a esse princípio.

 

O trabalho criativo acontece, creio, quando você se coloca num estado vigília desatenta, ou desatenção vigilante. Deixar a intuição em estado de alerta, se nutrir de informações, discutir conceitos, formular questões… e ficar à espreita dos "descuidos da mente" porque as ideias e respostas surgem nos momentos em que a atenção se desvia para o lado. As ideias surgem nas frestas do pensamento. Um estado em que o autor se deixe tomar ao mesmo tempo que fique aberto às questões que circulam na mente. De certa maneira, estabelece-se um diálogo interno, onde o consciente lança perguntas e o inconsciente responde. E as melhores respostas são as ações dos personagens. Afinal o que interessa é o que os personagens fazem, não o que dizem, como na vida, aliás. Claro que o que é dito importa, mas será amplificado quando referendar ou se contrapor às ações. Isso é o que conta.

 

Paulo Morelli

Auto-retrato tirado no sítio, enquanto escrevia o roteiro

 

Das muitas ideias que surgem, quais as boas, quais devem ser descartadas? É comum se dizer que a cada 10 ideias, 9 acabam sendo jogadas fora. Isso parece verdade. A quantidade de possibilidades, inter-relações e consequências de cada nova ideia é exponencial. Quando se abandona um caminho, toda uma sequência de outras ideias e cenas devem ser abandonadas em série. Esse processo é penoso, e é comum a sensação de estar perdido, achando tudo uma merda, querendo rasgar o roteiro. Mas com um pouco de paciência, as boas ideias se sedimentam e mostram sua força. O tempo é o grande aliado, o grande depurador. Só o tempo separa o bom do medíocre. Por isso, acredito que um bom roteiro de longa-metragem precise de uns bons anos de maturação para ser filmado.

 

Evidentemente, o processo de criação é dialético: um jogo entre a intuição e a razão. Aquela abre as portas, esta deve colocar ordem na casa, selecionar o que presta e ter a coragem de jogar fora o que é ruim, geralmente associado à autocomplacência, ao apego à uma ideia. Muitas vezes, boas ideias devem ser descartadas. Não basta ser uma boa ideia para permanecer. O que deve prevalecer são as necessidades da narrativa.

 

Enfim, depois de duas reuniões com a Chris Riera, eu fui para o meu sítio (o sítio que seria a locação da estória - só pra lembrar), para escrever o primeiro tratamento. Tinha em mãos uma escaleta detalhada, cheia de observações… e incertezas. Mas estava na hora de colocar as coisas no papel.

 

A Pele do Cordeiro - Escaleta

A escaleta que usei para começar a escrever - cada cor, no texto, mostra um colaborador diferente. Tinha 42 páginas e eu já havia detalhado as trajetórias dos personagens e os principais pontos de virada da narrativa

 

Fui numa segunda cedo, em fevereiro de 2011, disposto a ficar lá no síto escrevendo até terminar o primeiro tratamento. Mas isso fica para o próximo post.

 

Para terminar, quero prestar uma homenagem à tão querida por todos Chris Riera. É muito triste ver tanto talento se perder de uma forma tão prematura. Fica uma sensação de injustiça e impotência. No entanto, seus ensinamentos, visão e clareza estão plantados, e quem teve o privilégio de trabalhar com ela se transformou em um melhor profissional e uma pessoa melhor. Lembro que quando contei a ela sobre a vontade de fazer esse filme, ela me disse: leia "O Jardim das Cerejeiras" de Tchekhov. Espero poder honrar essa indicação, afinal de contas, é de lá que vem o conceito de "menos trama, mais drama". Foram apenas algumas reuniões com a Chris em 2011, e essas foram infelizmente as últimas vezes que a vi. Pouco depois ela veio a adoecer e neste ano, infelizmente, mas muito infelizmente mesmo, nos deixou. Mas sua contribuição está lá, presente no filme. Ela deixou sua marca, fez com que o filme fosse melhor e por isso serei sempre grato.

 

Chris Rieira

Chris Riera em 2008, época em que desenvolveu projetos na O2



Paulo Morelli, 12set12

969 visitas
COMO NASCEU A ESTÓRIA

Todo o elenco

 

Acabamos de rodar um novo longa metragem, A PELE DO CORDEIRO, que fiz em parceria de criação e direção com meu filho Pedro. Foram 4 semanas de filmagem com um elenco maravilhoso e inspirado, e uma equipe sintonizada, com sangue nos olhos para fazer o melhor filme possível. Durante a loucura da filmagem, não tive tempo de escrever um diário, mas agora resolvi contar nesse blog um pouco da experiência que passamos. Considerem esses escritos como um diário de memórias. Pois então, vamos lá, desde o começo.

 

Esse projeto vem sendo nutrido há uns 7 anos em inúmeras conversas que tive com o Pedro, no sítio ou na sauna de casa, que acabou se transformando em nosso "escritório" de fim de dia. Começou com a vontade um tanto ingênua de "fazer um filme no sítio". O lugar é bonito sem dúvida, mas daí até termos um filme há muito chão. Era fundamental haver uma boa estória. E procurando uma boa estória, os anos se passaram. Finalmente, uns dois anos atrás, encontramos um caminho.

 

Estávamos no sítio, só os dois, para desenvolver outros projetos de cinema e TV e, como sempre, procurando descobrir qual filme poderia se passar ali. O que a gente tinha, antes da estória, era um conceito: uma estória de personagens, simples e sincera. Referências vieram à mente: o tom sutil dos contos de Tchekhov, ou então filmes, como Invasões Bárbaras, ou Woody Allen. Ao mesmo tempo, não queríamos que fosse um filme com gente apenas falando. Tinha que ter uma pegada. Mas qual?

 

Sabemos que as respostas surgem do amadurecimento. Não pode haver pressa, o importante é manter a ideia sempre viva, sempre cultivada. Estávamos no sítio com esse objetivo, inventar a estória que iria se passar ali. O que tínhamos era muito incipiente (baseado em fazer um filme barato e não ter que esperar anos para captar recursos através das leis). Um princípio simples: poucos personagens, poucas locações. Ora, nossa locação era única, o sítio. Bastava criar uns poucos personagens. Às vezes acho que existe uma certa "lei" irônica que rege nosso trabalho: tudo que parece simples será complexo, e tudo que for complexo terá uma solução simples. Apenas alguns personagens! Não existe nada mais complexo do que isso, por mais simples que pareça.

 

Creio também que a criação acontece nas brechas, nos momentos em que você não está pensando no assunto. Quando sua mente está desatenta, pensando em outras coisas, surgem as respostas. O Pedro estava trabalhando nas ideias do longa que havia criado há pouco (e que deve realizar no ano que vem), e eu desenvolvia um longa cujo roteiro havia escrito há pouco tempo (um caso real de um sequestro, com um final absolutamente surpreendente. Uma grande estória que ainda farei um dia). Nossas mentes estavam ocupadas, e por isso surgiu espaço. O processo de criação pode (ou deve?) ser contraditório e imprevisível. Afinal, se alguém algum dia disse que a vida é organizada, não estava olhando ao redor.

 

Queríamos alguns poucos personagens, e personagens começaram a surgir: amigos todos, amantes alguns, e com o quê em comum? Psicologia? Talvez, mas muito complexo, melhor não. Arte? Sim, mas qual? Cinema, plásticas, música, literatura? Literatura! Estudantes que se unem porque escrevem. Apaixonados, livres, sonhadores, construtores do seu futuro.

 

É isso! Um filme sobre a amizade e os sonhos de futuro.

 

E durante mais uns 3 meses, pensamos em dezenas de variações de quem esses personagens poderiam ser, o que queriam e como se relacionavam.

 

Organograma

Esse é um gráfico que mostra os personagens e suas relações. Coloco aqui como uma curiosidade, já que várias coisas mudaram. Algumas evoluíram, outras simplesmente não existem mais.

 

Em julho daquele ano, 2010, ficou pronta uma casa de troncos no sítio. Histórica, feita por poloneses no Paraná em 1893 e na qual eu havia filmado uma cena do primeiro longa. A casa é um "lego" de troncos com 120 anos de idade. Lá estava ela, sem nenhum prego, apenas madeiras encaixadas, pousada no meio do sítio. Talvez porque a casa traga a questão da passagem do tempo, me veio a ideia: e se esses amigos enterrassem cartas para eles mesmos abrirem dez anos depois?

 

Um grupo de escritores (ou pretendentes a) que enterra cartas para eles mesmos abrirem 10 anos depois, onde fazem reflexões sobre o futuro, sobre quem serão no reencontro de abertura das cartas. O filme mostraria os sonhos da juventude em contraste com as imposições da maturidade. Opa, parecia que agora já tínhamos algo para começar. Aquilo que no início era uma ideia difusa começava a tomar forma. Uma estória sobre amadurecimento, sonhos e desilusões, a passagem do tempo e como isso altera a maneira de encarar a vida. Tudo isso feito por pai e filho se configurava em algo com potencial, com energia vital. Achamos que valia a pena seguir em frente.

 

Tínhamos algo: um tema, uma questão sobre a qual falar, e tínhamos um disparo dramático (as cartas para serem abertas 10 anos depois). Mas faltava alguma coisa, só isso parecia insuficiente. Despertava o interesse, sim, mas não plantava uma pergunta na mente. E sem uma pergunta atormentando o espectador, porque ele ficaria assistindo o filme até o fim?

 

No meio disso, eu estava desenvolvendo um software para roteiristas, o Story Touch, que é justamente um programa que te ajuda a pensar e "enxergar" a dramaturgia. Você começa a fazer perguntas para você mesmo. O problema é que tem que encontrar as respostas. Sentíamos que faltava algo… mas o que? Em novembro de 2010, montamos um grupo de desenvolvimento do roteiro, com Teo Poppovic, Nina Crintzs, Luis Eduardo Amaral, e claro, Pedro e eu. O bom de um grupo de desenvolvimento, é que ele chacoalha a sua cabeça, te confronta, questiona, propõe, subversiona, inverte e desse jogo de possibilidades, coisas novas surgem: "dois amigos escrevem juntos, não! competem… não! cada um escreve o seu, colaboram e competem; um é genial, e o outro? são os melhores amigos, só mostram o que escrevem entre si! e os outros? uma mulher entre eles, um trio? até que ponto? enterram as cartas, bêbados, loucos, acaba a pinga: 'vou na cidade pegar mais'… Acidente fatal."

 

Caio Blat

 

Paulo Morelli, 7 ago 12

1517 visitas