Esse é o terceiro post sobre o processo de criação e execução do A Pele do Cordeiro.
Fui para o sítio, futura locação do filme, numa segunda cedo, em fevereiro de 2011, disposto a passar a semana escrevendo - e levei uma cadeira especial, que havia acabado de comprar. Essa cadeira, imaginei eu, seria ideal para escrever tantas horas por tantos dias. Eu já havia passado por esse processo outras vezes, escrevendo o roteiro de outros projetos. Uma semana inteira no sítio numa imersão absoluta, solitariamente escrevendo das 9 da manhã à meia noite. Dessa maneira, havia escrito o roteiro de outros 3 projetos. Agora com o A Pele do Cordeiro seria a quarta experiência. Imersão para provocar emersão. Escrever 13 ou 14 horas por dia é extenuante (e prazeroso), e tenho a impressão que essa obsessão é parte do processo. É através desse mergulho mais ou menos irracional que as cenas começam a nascer.
Durante as semanas solitárias de escrita eu tinha um companheiro, que não deixava a situação tão solitária assim: Nicolau.
Eu passeava pelo sítio uma ou duas vezes por dia, para relaxar, mas também para ter ideias e pensar nas cenas enquanto caminhava pelas futuras locações. Pois foi numa dessas andadas que me deparei com um velho tronco seco, que já existia desde quando compramos as terras, no ano 2000. Gosto de procurar imagens que traduzam o conteúdo da estória. Criar metáforas visuais e com isso construir alicerces para a narrativa que não estejam nas palavras, mas nas imagens. Ora, estávamos falando de sonhos e desilusões e me pareceu adequado mostrar isso através do contraste: primeiro, no passado (1992) existiria uma árvore frondosa, depois, no presente da estória (2002), essa árvore teria se transformado no tronco seco.
O tronco seco que foi incorporado à narrativa como metáfora.
Eu sabia que conseguiria escrever 10 páginas por dia, o que é ótimo. Isso significa que em duas semanas eu teria o primeiro tratamento escrito. Esse era o plano. Bastava seguir a escaleta e deixar as cenas aparecerem. Dar voz às personagens. Mas na quinta feira, logo de manhã, ao sentar na tal cadeira especial, me deu uma dor nas costas que me jogou no chão. Uma dor na lombar como nunca tinha sentido. Tudo porque havia ajustado mal a altura da cadeira. Pronto acabou o trabalho. Passei o dia e o próximo indo atrás de remédios, massagens, analgésicos e emplastros, qualquer coisa pra diminuir a dor. Enfim, botei a viola no saco e voltei para São Paulo com apenas 27 páginas escritas, em vez de 40 ou 50.
Dei um jeito de sarar as costas e voltei para o sítio para mais duas semanas de imersão. Em 18 de março consegui acabar o primeiro tratamento. Algumas semanas depois, tivemos uma reunião com a Chris Riera, Teo Poppovic, Luis Amaral e Pedro Morelli, para eu receber os comentários sobre o que havia escrito. Claro que havia muito a se mexer, claro que muitas cenas estavam equivocadas e precisavam ser refeitas, mas já havia algo ali. O primeiro tratamento tinha sua força. A estrutura da estória havia ficado de pé e os personagens já começavam a ter vida.
A partir desse ponto, o Teo Poppovic começou a escrever os diálogos. Ele faz isso especialmente bem, e em breve havia um tratamento com um sabor especial: ele havia trazido um tom sutil de ironia e humor em várias cenas.
Mostrei para o Fernando Meirelles, e coloco aqui dois comentários que acho interessante compartilhar. Ele escreveu comentários conforme ia lendo, deixando registrado suas primeiras impressões. Primeiro, ele faz uma aposta comigo de que tinha sacado uma virada da trama. E acertou! Infelizmente, não posso revelar o que ele descobriu.
Nesse ponto, ficamos pensativos: o Fernando tinha sacado o ponto de virada do primeiro ato bem antes da hora. Será que tínhamos entregado cedo demais? Plantar pistas é um assunto delicado. Se você revela demais, o espectador mata a charada, se revela de menos, ele leva um susto quando chega a hora, e pode se confundir ou se desligar da estória. O fato é que para a estória ficar amarrada, é necessário fazer uma costura dos setups e payoffs - ou "plantar" e "colher" em português. As fatos de uma estória não devem acontecer sem preparação. A questão é quanto.
Estávamos diante de um dilema estético, da narrativa. No filme existe um segredo que clama por ser revelado. Que caminho seguir? Duas opções: a) um filme onde o segredo é revelado só no final, tanto para o público quanto para as personagens; b) revelar o segredo ao público no início da narrativa. Nesse caso, o público sabe mais do que as personagens, e a partir desse ponto, passa a se fazer a seguinte pergunta: "quero ver como os personagens vão descobrir aquilo que eu já sei".
É uma abordagem hitchcockiana, onde o importante é o suspense não o mistério. O exemplo que Hitchcock dava era da bomba embaixo da mesa. No mistério, a bomba simplesmente explode, mata as pessoas e a platéia leva um susto. No suspense, o público sabe que existe uma bomba mas as pessoas sentadas à mesa, não. Desse jeito, a audiência fica angustiada esperando para saber se a bomba vai explodir, se as pessoas à mesa vão escapar ou não. Em vez de um susto que dura alguns segundos, o suspense provoca a interação do público por um longo tempo.
Depois dessa reflexão, resolvemos inverter as coisas. Em vez de revelar que existe uma bomba embaixo da mesa só no final do 1º Ato, resolvemos compactuar com a audiência o quanto antes (apesar de mantermos passado e presente embaralhados), e com isso desenvolver o suspense em vez do mistério. Mas é claro que não se pode revelar tudo, apenas o necessário para capturar a atenção. O público deve saber que existe a bomba, mas não sabe se ela vai explodir. No caso do A Pele do Cordeiro, o público vai saber que existe um segredo, mas não sabe como, quando - e se - ele vai ser revelado.
Poucas páginas depois, no segundo comentário, o Fernando engrenou na estória.
Claro que havia muito trabalho ainda pela frente. Apesar disso, eu me precipitei. Resolvi acreditar que já estávamos maduros e comecei me movimentar para filmar no segundo semestre de 2011. No fundo, estava louco para voltar à um set, afinal a última vez que havia filmado tinha sido no Cidade dos Homens, em 2006. Era pura precipitação, mas teimosamente insisti em filmar ainda em 2011. A formação de elenco e equipe continuou por mais alguns meses, até que, finalmente, resolvi abortar as filmagens naquele ano, principalmente porque as datas de filmagem estavam se aproximando perigosamente da estação das chuvas na Mantiqueira. E lá, quando a água começa a cair, cai mesmo. Ainda bem! Com esse adiamento, ganhei mais nove meses para trabalhar no roteiro - e ele evoluiu muito nesse período. Se eu tivesse filmado em 2011 o filme teria ficado pior.
Com o adiamento das filmagens para 2012, continuamos o trabalho de desenvolvimento do projeto. Em setembro fomos, Pedro e eu, passar uns dias no sítio para pensar na linguagem cinematográfica que queríamos para o filme. As coisas devem andar simultaneamente, a estória e a estética, porque, afinal de contas a estética deve abarcar a estória. O conteúdo deve residir na forma. Se houver uma dissociação entre forma e conteúdo, a coisa desanda.
Um dos primeiros conceitos estéticos que nos ocorreu foi o jogo dos reflexos, sombras e silhuetas. Essa é uma foto onde estamos os dois, pai e filho, colocando em prática essa ideia.
Pelo outro lado, o roteiro não podia parar. Com o afastamento da Chris Riera por motivos de saúde, convidamos uma nova pessoa para analisar o roteiro: Luiz Bolognesi. Como descrever o seu trabalho em uma palavra… hum… brilhante! Marcamos uma reunião em setembro de 2011. Desta vez, só o Pedro e eu. Depois de 5 horas de reunião não tínhamos falado tudo que havia para ser dito e tivemos que marcar uma reunião/parte 2. A sua clareza e compreensão da narrativa, dos personagens, das progressões e dos significados foi muito útil, mais do que útil, transformador.
É curioso notar que nessa época (final de 2011) o passado e o presente da estória estavam intercalados (vejam as linhas verdes horizontais no timeline). Depois das reuniões com o Luiz, partimos para agrupar todo o passado, e seguir com o filme na ordem cronológica. Filmamos e estamos montando (nesse momento, aliás) desse jeito. Mas o próximo passo da montagem, que vai começar daqui a poucos dias, é justamente experimentar a volta ao pensamento original: embaralhar passado e presente. Vai ser curioso ver o que resultará desse jogo de flashbacks. Estamos trabalhando no Corte 3 do filme, e ele já tem dois nomes: 3A (linear), e 3B (flashbacks). É impossível saber nesse momento qual dos dois ficará melhor. Só vendo.
As linhas verdes horizontais indicam o passado: o timeline acima é o da escaleta (repleto de fashbacks). O de baixo, do roteiro filmado (em ordem cronológica. Reparem que as linhas verdes horizontais estão todas agrupadas no início da estória).
Depois da sacudida nas ideias que o Luiz Bolognesi provocou, passei por mais uma semana de imersão, desta vez em casa mesmo (sem cadeiras assassinas), e fechei um novo tratamento. Com ele em mãos, marcamos a filmagem para o segundo trimestre de 2012. Mas isso é história para uma próxima vez.
Paulo Morelli, 23 out 12
